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1936-2006. Reflexons sobre 70 anos do holocausto galego
Un artigo de: Carlos Morais
[19/07/2006]

Um dia como hoje, de 17 a 18 de Julho, de há exactamente 70 anos, umha parte do exército espanhol iniciava o pronunciamento militar contra a II República. O que estava concebido como um golpe de estado que lograria a imediata adesom de todas as tropas converteu-se numha guerra que durou quase três anos, mais umha década e meia de luita guerrilheira em quarenta anos de brutal ditadura fascista.


Uns anos antes, 14 de Abril de 1931, o corrupto e oligárquico regime da Restauraçom, simbolizado pola monarquia bourbónica de Alfonso XIII, cai como um castelo de naipes após a vitória das candidaturas republicanas nos grandes núcleos urbanos, abrindo passo a melhor etapa da nossa história. Neste quinquénio tem lugar na Galiza um dinámico e participativo processo de auto-organizaçom operária e popular que questionando o poder secular das classes dirigentes consegue importantes, embora insuficientes, conquistas democráticas, laborais, nos direitos das mulheres, culturais. Simultaneamente tem lugar um importante incremento da consciência nacional plasmado mo maciço voto afirmativo que permite a aprovaçom em referendo do Estatuto de Autonomia em 28 de Junho de 1936, marcando um fito no autogoverno e na construçom nacional da Galiza.

Perante estes dous processos, o bloco de classes dominante, incapaz de frear, empregando a legalidade da democracia burguesa, as aspiraçons das massas e de assegurar seguir perpetuando a exploraçom e dominaçom do proletariado, dos povos e das mulheres, opta por um golpe de estado, financiando, apoiando e legitimando a sublevaçom militar.

Mas a resistência popular provoca o seu inicial fracasso, transformando-se numha guerra de classes que dura três anos. Por um lado o proletariado, a pequena burguesia democrática, um pequeno sector do exército e das forças policiais, o mais lúcido da cultura e da intelectualidade, frente a um exército profissional com sólida experiência militar em guerras coloniais, com o apoio da burguesia e a igreja, e a determinante ajuda militar de Hitler e Mussolini.

Por que Galiza cai rapidamente sobre o controlo dos militares e organizaçons fascistas
A lentidom das autoridades republicanas em reagir determinárom os acontecimentos. Além da imprevisom do governo de Casares Quiroga em evitar o golpe, as suas directrizes iniciais exortavam à inaniçom para nom incomodar ao exército e ingenuamente evitar que apoiasse o levantamento.

Umha boa parte do movimento popular aderiu à ingenua credulidade na lealdade dos comandantes militares ao governo, seguindo a opiniom dos Governadores Civis, e das forças políticas republicanas da pequena burguesia que ocupavam a imensa maioria das alcaldias e instituiçons. Assim, seguindo as erróneas directrizes caírom na irresoluçom, na absoluta indecisom e ausência de planos imediatos de intervençom. Nas autoridades pesava por um lado a obediência cega a Casares, mas sobretodo o temor à reacçom das massas operárias armadas e movimentadas.

Mas também, a diferença de Barcelona, Valência, Gijom, ou Madrid, no nosso país manifestou-se pouca audácia por parte das organizaçons operárias para organizar a defesa, e passar à iniciativa ocupando as ruas e os espaços estratégicos (estradas, portos, estaçons do caminho de ferro, aeródromos, concelhos, meios de comunicaçom, edifícios de telefones e telégrafos), requisando armas, explosivos e veículos, realizando detençons de dirigentes e destacados membros das organizaçons da direita, desarmando ao fascismo, e atacando os quartéis militares e da Guarda Civil. A fraqueza nas principais cidades galegas das organizaçons revolucionárias no ámbito político e sindical impedírom umha maior determinaçom e iniciativa. Agindo com celeridade e energia e aproveitando a colaboraçom de boa parte da tropa poderia-se ter neutralizado a saída do exército e simultaneamente fornecer-se de armamento para gorar o levantamento militar.

O êxito do amotinamento da armada em Ferrol poderia ter bloqueado os portos, bombardeado os quartéis sediciosos, ou no melhor dos casos agindo como um poderoso poder disuasório.
Mas sobretodo pesou a carência de material bélico adequado (armas de guerra, muniçons, explosivos) para fazer frente a um exército profissionalizado.

Galiza sim resistiu
Existiu umha resistência e importantes combates entre o proletariado e classes populares contra o exército e as organizaçons fascistas. Aí estám a multidom de operários e labregos, de militantes e simpatizantes da Frente Popular que procedentes das mais variadas comarcas do país afluem cara as capitais provinciais para defender a República e neutralizar o golpismo. Nom podia ser doutro jeito. Em Fevereiro de 1936 as candidaturas da Frente Popular ganharam as eleiçons. As posteriores maciças manifestaçons do 1º de Maio som outro expoente do desenvolvimento da luita de classes.

Porém, polas razons expostas, o exército golpista e as forças paramilitares na maioria das cidades e vilas galegas começam a controlar a situaçom a partir do dia 20/21. Perderom-se pois 48/72 horas decisivas para mudar o curso dos acontecimentos. O exército na Galiza nom decide aderir à sublevaçom até o dia 20. Estivo à expectativa, assegurando-se do seu êxito. Mas o dia 27 de Julho, após liquidada a heroica resistência em Tui, Galiza estava baixo a bota do fascismo.
Na Galiza nom houvo frente de guerra convencional, sim guerra de extermínio. Desde esse momento começa umha repressom indiscriminada, um genocídio ideológico consistente na eliminaçom física dos dirigentes, quadros e mais conhecidos militantes das organizaçons obreiras, dos partidos da esquerda revolucionária e reformista, de sindicalistas, agraristas, nacionalistas galegos, republicanos, mas nom só. O fascismo pretendia aterrorizar, paralisar a resposta popular, evitar a reorganizaçom da resistência, e impor um regime autoritário alicerçado sobre o medo, o pánico e total indefensom, gerando sensaçom de que ninguém estava a salvo de represálias ou mesmo da morte.

A repressom nom foi espontánea
As execuçons massivas, fusilamentos, sacas e passeios nom fôrom excessos do momento como a historiografia oficial falsamente relata, e nos quer fazer acreditar. Estava planificado e contemplado nos preparativos do general Mola, e teorizado polo fascismo. Nas instruçons enviadas nos dias prévios aos seus subordinados Mola afirmava sem eufemismos que "a acçom deve ser em extremo violenta para reduzir o antes possível o inimigo, que é forte e está bem organizado", aplicando "castigos exemplares a todos os directivos de partidos e sindicatos desafectos ao Movimiento" a fim de "esganar os movimentos de rebeldia e greves".

O cardeal Isidro Gomá, primaz de Espanha, declarou "Nom pode haver outra pacificaçom que nom seja a das armas, convém extirpar toda a podridom da legislaçom laica".
A igreja católica na sua prática totalidade apoiou o golpe de estado e definiu como cruzada a guerra.

Nesta orgia de sangue, um autêntico holocausto, milhares de homes e mulheres som assasinad@s nos primeiros anos, mas também de forma constante, embora numericamente muito menor, até praticamente o final do regime.

Desconhecemos o número de vítimas
70 anos depois ainda desconhecemos exactamente o número de vítimas. Os dados historiográficos oscilam entre 7.000 e 10.000 mortes, mas podem ser bastantes mais. Como referente comparativo no Chile de Pinochet segundo Amnistia Internacional fôrom 3.197 @s mort@s e desaparecid@s entre 1973 e 1990.

D@s milhares de assassinad@s, umha parte ainda estám enterrad@s em fojas comuns, desconhecendo-se em muitos casos a sua exacta localizaçom. Enquanto os carrascos, os que combatérom com os golpistas fôrom honrados com placas nas igrejas, homenageados com nomes de ruas, com estatuas, e com todo tipo de reconhecimentos e privilégios, @s perdedores da Guerra que se salvárom do holocausto, tivérom que sofrer repressom, humilhaçons, acossa. Dezenas de milhares de pessoas perdérom os seus empregos, as suas propriedades fôrom requisidas, saqueadas.

Dezenas de milhares tivérom que escapar, exiliar-se para evitarem serem assassinad@s, torturad@s e encarcerad@s.

Movimento popular e iniciativas da Junta da Galiza
Devemos evitar que a reivindicaçom deste passado seja novamente sequestrada na gaiola de ouro das instituiçons. É necessário que a Junta da Galiza e as instituiçons colaborem com recursos económicos nesta tarefa, é positivo que este ano fosse nomeado ano da memória; que na Ilha de Sam Simom se construa um centro de estudo da repressom, mas cumpre sermos precavid@s, manter umha lógica desconfiança sobre o verdadeiro papel, objectivos, e limitaçons das instituiçons autonómicas e estatais na recuperaçom da memória histórica da repressom fascista na Galiza.

Seria um grave erro delegar nas instituiçons herdeiras do regime umha tarefa que deve estar dirigida polo movimento popular que mediante um rico e heterogéneo associacionismo tem logrado situar às grandes vítimas do franquismo na cena pública: @s represaliad@s e desaparecid@s. Tem que ser capaz de combinar a necessária reivindicaçom da dívida que o Estado espanhol tem com @s represaliad@s, com as vítimas do franquismo, mediante umha reabilitaçom moral e política, além dumha recompensaçom económica, com umha série de medidas políticas que na sua imensa maioria estám recolhidas nas conclusons do I Congresso da Memória de Narom (2003):

-Retirada da simbologia franquista substituindo os nomes das ruas e prazas polas vítimas.
-Devoluçom do património às entidades afectadas polo golpe militar.
-Financiamento de todos os trabalhos de investigaçom em curso e criaçom dumha Instituto público responsabilizado de coordenar a investigaçom no ámbito nacional.
-Exigir da igreja católica um reconhecimento público das suas imensas responsabilidades na repressom franquista.
-Anulaçom de todos os juízos e condenas realizadas no franquismo.

Mas também nom devemos, em aras dumha nova e portanto falsa reconciliaçom, assumir novamente o discurso de "evitarmos revanchismos", "removermos um passado que já nom tem volta atrás", seguir ocultando, ou seja protegendo do escárnio público, aos assasssinos, dando a conhecer os nomes dos carrascos: falangistas, guardas civis, polícias, funcionários, juízes, responsáveis políticos e da administraçom, empresas, envolvidas em crimes de lesa humanidade.

O regime emanado do 18 de Julho de 1936, e todas as forças políticas e sindicais que de algumha maneira tenhem colaborado com a sua continuidade, a actual democracia espanhola, som responsáveis da ocultaçom do nosso passado e do estado de amnésia colectiva que envolve amplos sectores do nosso povo.

Chegou o momento de superarmos esta terrível realidade, sem sectarismos e sem submetermo-nos aos interesses tartufistas do politicamente correcto.




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Carlos Morais

Carlos Morais nasceu em Mugueimes, Moinhos, na Baixa Límia, 12 de Maio de 1966. Licenciado em Arte, Geografia e História pola Universidade de Santiago de Compostela tem publicado diversos trabalhos e ensaios de história, assim como dúzias de artigos no Abrente, A Peneira, A Nosa Terra e outras publicaçons periódicas. Activista dos movimentos sociais, inicialmente no estudantil, sendo fundador dos CAF no cámpus universitário de Ourense, e depois do antimilitarista é militante comunista desde jovem. Actualmente forma parte da Permanente Nacional de NÓS-UP e é Secretário Geral de Primeira Linha.


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